A interminável chuva que cai sobre São Paulo e o trânsito tradicionalmente caótico da cidade são um convite a permanecer em casa. Entretanto, o show de um cara que tem como referências “os bons e eternos ‘álbuns políticos’ de Chico Buarque” desperta, no mínimo, a curiosidade de quem gosta das famosas músicas de protesto de Chico. Passei a mão no guarda-chuva e fui para o SESC Pompeia conferir a apresentação de Zé Vicente.
Em composições como "Doa a quem Doer" realmente é inegável a influência de Chico Buarque no trabalho de Zé Vicente. Porém, em "Se lixando" é imediata a associação a outro importante artista: Caetano Veloso. A maneira como a letra é construída, executada e, principalmente, a performance de Zé no palco lembram muito a atitude de Caetano na fase Cê.
Mas seria uma injustiça reduzir Zé Vicente a um sintetizador de ícones na MPB. Em "Sinal", o cantor mostra todo seu potencial como intérprete e na deliciosa "Sabores" contagia o público com sua levada carnavalesca. Seu repertório ultrapassa as fronteiras brasileiras e incluiu ainda uma delicada canção francesa inspirada em um poema de Baudelaire.
Zé Vicente ainda não tem nenhum álbum gravado, mas em seus shows são vendidos EPs com sete canções. Além de levar para casa uma mostra da boa música produzida pelo compositor-cantor, quem adquirir seu CD ainda terá nas mãos uma obra de arte. Zé Vicente também é artista plástico e assina as ilustrações do encarte.
De acordo com os bons manuais jornalísticos, utilizar provérbios e frases de senso comum empobrece o texto. Eu concordo, afinal de contas a voz do povo é a voz de Deus, mas há momentos em que o uso desses recursos é imprescindível! É o caso da apresentação de Rubinho Jacobina, que esteve na choperia do SESC Pompeia dia 21, terça passada. Filho do cineasta baiano Fernando Coni Campos, Rubinho prova que filho de peixe, peixinho é. Mesmo não enveredando pela sétima arte, seu DNA artístico manifestou-se cedo, só que na área musical. Assim como seu irmão, Nelson Jacobina, parceiro constante de Jorge Mautner, Rubinho destaca-se como um excelente compositor. Integrante da Orquestra Imperial, onde canta e toca teclados, Rubinho lançou em 2005 Rubinho e a Força Bruta, seu único álbum solo até agora. No repertório estão as ótimas “Meu Gato Morreu”, “Toc Toc” e “Artista é o Caralho” que, obviamente, não ficaram de fora do show.
Talvez o Rubinho Jacobina valha-se de alguns ditados no seu dia-a-dia. Pois o provérbio Diga-me com quem andas que te direi quem és cai como uma luva sobre a formação de sua banda. A Força Bruta não tem esse nome em vão. O power trio reúne a nata da nova música carioca: Pedro Sá (que, entre outros projetos, integra a Banda Cê de Caetano Veloso) assume o baixo; Gabriel Bubu (da banda Do Amor) toca guitarra; e a bateria fica a cargo de Domenico (do núcleo Domenico+2). Pode parecer óbvio como chover no molhado, mas o show foi um sucesso! A apresentação de letras inteligentes, executadas com competência pela Força Bruta, somada a timidez carismática de Rubinho Jacobina só poderia dar certo. Assim como 2 e 2 são 4!
O cinema e a música sempre mantiveram uma relação estreita. Mesmo antes da utilização de trilhas sonoras a “música incidental” já tinha uma posição de destaque nas narrativas cinematográficas. Para celebrar essa bem sucedida união o SESC Pompeia lançou no último final de semana de abril o Projeto TRILHANDO, onde quatro diretores de cinema dividem com o público sua experiência na criação da trilha sonora de seus longas.
O convidado para estrear a primeira edição do evento foi Bruno Barreto, diretor de 18 longas-metragens, entre eles o recente Última Parada174 (2008), e o maior sucesso de bilheteria do cinema brasileiro de todos os tempos, Dona Flor e Seus Dois Maridos (1976) – com mais de 12 milhões de espectadores. Fruto da união do produtor cinematográfico Luiz Carlos Barreto com a pianista Lucy Barreto, Bruno personifica a junção entre o cinema e a música. No set list, o diretor incluiu músicas compostas para seus filmes, como “O que será” (Chico Buarque) encomendada para Dona Flor e canções utilizadas em outras produções, mas que gostaria que tivessem sido criadas para suas obras – é o caso de “Um trem para as estrelas” (Gilberto Gil/ Cazuza) escrita para o título homônimo de Cacá Diegues lançado em 1987.
Para interpretar os 16 temas apresentados no show, Bruno Barreto escalou Márvio, o (ainda) desconhecido vocalista da banda carioca Cabaret, e a excepcional Gal Costa. A banda Seleção Natural completou o elenco produzido pelo multi-instrumentista e arranjador Lucas Santtana. E a apresentação ficou a cargo do jornalista Cunha Jr. Agora só nos resta esperar pelas sequências desse blockbuster cinemusical.